Bescovine

Primeiro eu a peguei pelas pernas, por trás dos joelhos, e a joguei contra a parede. Senti sua respiração forte e tremula contra a minha, o aroma de seu hálito se misturando com seu perfume. Suas mãos agitadas roçavam pela minha barba e agarravam meus cabelos como podiam enquanto sentia sua língua escorregando dentro de minha boca. Sua pele morena já começava a brilhar pelo suor, aquelas longas pernas me envolveram e me seguravam ainda mais perto daqueles lábios quentes, de um beijo aliciador e malicioso. E ela sabia. Mordeu minha boca e puxou para uma distância onde conseguiu olhar em meus olhos, tão fundo quanto eu queria ir nela. Mordia com força o bastante para fazer escorrer um filete de sangue.

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Nina

No meio da noite ele acordou, confuso e ainda entorpecido pelo sono. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o de que ainda era de madrugada. “Nem vou olhar o relógio”, pensou, “ainda devem ser 03h da manhã”. Sempre é, certo? Foi quando percebeu que não estava sozinho no quarto. Sentia o colchão pesado às suas costas, como se alguém tivesse sentado na beirada da cama enquanto ele podia apenas olhar a parede à sua frente. “É branca, não é?”. Achava que sim, mas não conseguia ter certeza.

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Aquele lugar na minha mente

Estava claro lá fora e escuro aqui dentro.

Minha cabeça.

Como janelas escangalhadas, arrombadas de dentro para fora por momentos, estavam meus olhos fixados, viciados nas rachaduras do meu céu privado. Aqui dentro de meu quarto aonde reino jogado em meu leito desarrumado, assistindo aos pensamentos de todo um dia fugirem atordoados por entre e diante dos meus olhos.

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Ventura

Ele imediatamente sentiu o cansaço acumulado em seu corpo pela mesmice diária. Sentou na beirada da cama e olhou através da janela, poucas nuvens escurecidas sob um céu crepuscular, sentiu no corpo o sopro fresco do vento matinal e deixou os olhos se acostumarem com a pouca luz. Sua cabeça, no entanto, ainda tentava se desvencilhar das usuais armadilhas entorpecentes dos sonhos, e em um breve descuido dos olhos fora capturado pela mais insidiosa em sua própria cabeça. Quando despertou, não conseguia se sentir o mesmo, estava tomado por um febril anseio de procura do qual não encontrou maneiras de se libertar…

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Enxame

Eu poderia convidá-lo a sentar um pouco mais perto, a compartilhar do calor desta fogueira sob o céu coberto de nuvens desta noite e aquecer a palma das mãos com conforto. Mas hoje, caro leitor, não tenho uma história para lhe contar, sequer uma narrativa fictícia para lhe estimular a sonhar um pouco mais ao dormir. O que tenho é este vago espaço que vê e coragem, afinal, do que serve esta fogueira senão para compartilharmos palavras? Então na ausência delas, a coragem para me calar eu tenho…

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Helena Desconstruída

Helena era bela. Tornou-me o que sou hoje: Um artista. Claro que sim. Seus cabelos tinham uma textura lisa e um brilho tão natural que não podia ser próprio. Seus olhos, mesmo vazios eram lindos, eram vivos–assustadoramente vivos. E ela tinha aquela expressão, como se sorrisse. Enquanto a construía, sentia que ela estava feliz, que seus lábios sorriam de volta para mim… E eu sorria para ela…

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O Bosque

Com ternura ele segurou sua mão. Beijou-lhe o pulso e sentiu o aroma que ela emanava. Um perfume natural, que apenas ela, naquela condição tão única e definitiva podia emanar. Fechou os olhos e imaginou como seria se, naquele mesmo instante, estivessem em um imenso campo de flores, com o vento soprando sobre os emaranhados dourados de cabelos opacos em seu frágil e delicado crânio, levando seu perfume e trazendo consigo aromas mais doces. Não conseguia pensar em ultraje maior. Eles se pertenciam, tanto quanto pertenciam àquela cabana enraizada no útero do bosque atrás do lago aonde se conheceram há tantos anos. Tudo–desde os galhos das árvores mortas que cresciam de maneira visivelmente errada até o ranger do piso de madeira no quarto onde estavam naquele momento–construía sua história, como blocos de concreto que compõem os muros de uma fortaleza.
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