Ventura

Ele imediatamente sentiu o cansaço acumulado em seu corpo pela mesmice diária. Sentou na beirada da cama e olhou através da janela, poucas nuvens escurecidas sob um céu crepuscular, sentiu no corpo o sopro fresco do vento matinal e deixou os olhos se acostumarem com a pouca luz. Sua cabeça, no entanto, ainda tentava se desvencilhar das usuais armadilhas entorpecentes dos sonhos, e em um breve descuido dos olhos fora capturado pela mais insidiosa em sua própria cabeça. Quando despertou, não conseguia sentir-se o mesmo, estava tomado por um febril anseio de procura do qual não encontrou maneiras de se libertar…

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Enxame

Eu poderia convidá-lo a sentar um pouco mais perto, a compartilhar do calor desta fogueira sob o céu coberto de nuvens desta noite e aquecer a palma das mãos com conforto. Mas hoje, caro leitor, não tenho uma história para lhe contar, sequer uma narrativa fictícia para lhe estimular a sonhar um pouco mais ao dormir. O que tenho é este vago espaço que vê e coragem, afinal, do que serve esta fogueira senão para compartilharmos palavras? Então na ausência delas, a coragem para me calar eu tenho…

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Helena Desconstruída

Helena era bela. Tornou-me o que sou hoje: Um artista. Claro que sim. Seus cabelos tinham uma textura lisa e um brilho tão natural que não podia ser próprio. Seus olhos, mesmo vazios eram lindos, eram vivos–assustadoramente vivos. E ela tinha aquela expressão, como se sorrisse. Enquanto a construía, sentia que ela estava feliz, que seus lábios sorriam de volta para mim… E eu sorria para ela…

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O Bosque

Com ternura ele segurou sua mão. Beijou-lhe o pulso e sentiu o aroma que ela emanava. Um perfume natural, que apenas ela, naquela condição tão única e definitiva podia emanar. Fechou os olhos e imaginou como seria se, naquele mesmo instante, estivessem em um imenso campo de flores, com o vento soprando sobre os emaranhados dourados de cabelos opacos em seu frágil e delicado crânio, levando seu perfume e trazendo consigo aromas mais doces. Não conseguia pensar em ultraje maior. Eles se pertenciam, tanto quanto pertenciam àquela cabana enraizada no útero do bosque atrás do lago aonde se conheceram há tantos anos. Tudo–desde os galhos das árvores mortas que cresciam de maneira visivelmente errada até o ranger do piso de madeira no quarto onde estavam naquele momento–construía sua história, como blocos de concreto que compõem os muros de uma fortaleza.
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