Sereno

Reconheço sem ter nunca dito
De minha situação o verdito
É, sem embaraço, estar perdido
Na rasa perpetuidade do amor

Com maturidade hoje entendo
Não é sobre a profundidade deste mar imenso
Onde jamais alguém se afogou em desalento
Por seu amor não saber nadar

Pois são estas águas rasas
Que pouco envolvem os pés em suas extensas asas
Mas que aos horizontes estende sua calma
Sem a preocupação de findar

É esse o motivo da dor de amar
Não a impossibilidade de submerso respirar
Na mansidão das águas agridoces deste mar
Que engoda os atrevidos em seu ardor

É pela incessante vista de tudo
Por vermos quem aperta o passo, mudo
E com a sombra carrega cada miúdo
Dos estilhaços de um coração a desejar

E também pela escolha que faço
De neste lugar cessar meu passo
De não escrever cada palavra que calo
Sempre e em todo lugar

De sentir nos pés o marulho
De poder aceitar o orgulho
De ouvir da água o barulho
De você a se afastar

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Insistência

Todo dia pela manhã o garoto tocava a campainha. Quando uma mulher de idade avançada atendia, deixava-o entrar e, por algumas horas, o menino de seis anos lhe ajudava com os afazeres por pura e inocente curiosidade. Aos quatro, sua mãe se sentava com ele na calçada para aproveitar o sol matinal. Foi quando ele conheceu Luzia, dois anos mais velha, que morava na casa ao lado com a avó.
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Ira

Noite após noite o sono parecia cada vez mais carregado. A cada novo amanhecer, sentia o corpo cansado o suficiente para tornar tarefas triviais muito desgastantes. Achou que a idade começava a o engolir como uma criança engole um fio de macarrão: rápida e emporcalhadamente. Não se lembrava de sonhar ou ter pesadelos conturbados que justificassem a fadiga crescente. Ao que tudo indicava, seu inconsciente era pouco criativo e apreciava certa inatividade durante o sono. Para ele, o período entre dormir e acordar era um simples piscar de olhos, onde nada acontecia. Exceto, é claro, que ele nunca esteve tão enganado.

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Sonora

É, eu sei que você ouve essa música. O que não sei e sequer ouso a perguntar é quanto tempo você dedicou para apenas apreciar e deixar a melodia escorrer para dentro de seus ouvidos; se em algum momento pensou em atribuir um nome à canção sobre a qual seus pensamentos adormecem todas as noites. Não se preocupe, eu—mais do que qualquer outro—entendo. A noite recai sobre sua parte do mundo e sua cabeça recosta sobre um amontoado de pedras áridas e agudas, é só quando deixa de perceber que o sono lhe acolhe nos braços e te conforta com o esquecer do imediato. Mas de olhos abertos estamos protegidos da bruma do esquecimento. Então ouça…

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Bescovine

Primeiro eu a peguei pelas pernas, por trás dos joelhos, e a joguei contra a parede. Senti sua respiração forte e tremula contra a minha, o aroma de seu hálito se misturando com seu perfume. Suas mãos agitadas roçavam pela minha barba e agarravam meus cabelos como podiam enquanto sentia sua língua escorregando dentro de minha boca. Sua pele morena já começava a brilhar pelo suor, aquelas longas pernas me envolveram e me seguravam ainda mais perto daqueles lábios quentes, de um beijo aliciador e malicioso. E ela sabia. Mordeu minha boca e puxou para uma distância onde conseguiu olhar em meus olhos, tão fundo quanto eu queria ir nela. Mordia com força o bastante para fazer escorrer um filete de sangue.

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Nina

No meio da noite ele acordou, confuso e ainda entorpecido pelo sono. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o de que ainda era de madrugada. “Nem vou olhar o relógio”, pensou, “ainda devem ser 03h da manhã”. Sempre é, certo? Foi quando percebeu que não estava sozinho no quarto. Sentia o colchão pesado às suas costas, como se alguém tivesse sentado na beirada da cama enquanto ele podia apenas olhar a parede à sua frente. “É branca, não é?”. Achava que sim, mas não conseguia ter certeza.

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