Intrínseco

Falar sobre sentimentos, e não sentir menos.
Pois entre tudo o que é resto, o que nos resta é não somente esperar, mas também sentir
Uma foto, música ou uma vaga lembrança sobre pequenos pensamentos perdidos em um futuro somente desejado.
Sentir, e nunca menos.
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Insistência

Todo dia pela manhã o garoto tocava a campainha. Quando uma mulher de idade avançada atendia, deixava-o entrar e, por algumas horas, o menino de seis anos lhe ajudava com os afazeres por pura e inocente curiosidade. Aos quatro, sua mãe se sentava com ele na calçada para aproveitar o sol matinal. Foi quando ele conheceu Luzia, dois anos mais velha, que morava na casa ao lado com a avó.
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Ira

Noite após noite o sono parecia cada vez mais carregado. A cada novo amanhecer, sentia o corpo cansado o suficiente para tornar tarefas triviais muito desgastantes. Achou que a idade começava a o engolir como uma criança engole um fio de macarrão: rápida e emporcalhadamente. Não lembrava-se de sonhar ou ter pesadelos conturbados que justificassem a fadiga crescente. Ao que tudo indicava, seu inconsciente era pouco criativo e apreciava certa inatividade durante o sono. Para ele, o período entre dormir e acordar era um simples piscar de olhos, onde nada acontecia. Exceto, é claro, que ele nunca esteve tão enganado.

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Sonora

É, eu sei que você ouve essa música. O que não sei e sequer ouso a perguntar é quanto tempo você dedicou para apenas apreciar e deixar a melodia escorrer para dentro de seus ouvidos; se em algum momento pensou em atribuir um nome à canção sobre a qual seus pensamentos adormecem todas as noites. Não se preocupe, eu—mais do que qualquer outro—entendo. A noite recai sobre sua parte do mundo e sua cabeça recosta sobre um amontoado de pedras áridas e agudas, é só quando deixa de perceber que o sono lhe acolhe nos braços e te conforta com o esquecer do imediato. Mas de olhos abertos estamos protegidos da bruma do esquecimento. Então ouça…

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Bescovine

Primeiro eu a peguei pelas pernas, por trás dos joelhos, e a joguei contra a parede. Senti sua respiração forte e tremula contra a minha, o aroma de seu hálito se misturando com seu perfume. Suas mãos agitadas roçavam pela minha barba e agarravam meus cabelos como podiam enquanto sentia sua língua escorregando dentro de minha boca. Sua pele morena já começava a brilhar pelo suor, aquelas longas pernas me envolveram e me seguravam ainda mais perto daqueles lábios quentes, de um beijo aliciador e malicioso. E ela sabia. Mordeu minha boca e puxou para uma distância onde conseguiu olhar em meus olhos, tão fundo quanto eu queria ir nela. Mordia com força o bastante para fazer escorrer um filete de sangue.

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Nina

No meio da noite ele acordou, confuso e ainda entorpecido pelo sono. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o de que ainda era de madrugada. “Nem vou olhar o relógio”, pensou, “ainda devem ser 03h da manhã”. Sempre é, certo? Foi quando percebeu que não estava sozinho no quarto. Sentia o colchão pesado às suas costas, como se alguém tivesse sentado na beirada da cama enquanto ele podia apenas olhar a parede à sua frente. “É branca, não é?”. Achava que sim, mas não conseguia ter certeza.

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