Ira


Noite após noite o sono parecia cada vez mais carregado. A cada novo amanhecer, sentia o corpo cansado o suficiente para tornar tarefas triviais muito desgastantes. Achou que a idade começava a o engolir como uma criança engole um fio de macarrão: rápida e emporcalhadamente. Não lembrava-se de sonhar ou ter pesadelos conturbados que justificassem a fadiga crescente. Ao que tudo indicava, seu inconsciente era pouco criativo e apreciava certa inatividade durante o sono. Para ele, o período entre dormir e acordar era um simples piscar de olhos, onde nada acontecia. Exceto, é claro, que ele nunca esteve tão enganado.

Começou—pensava ele—quando acordou certa manhã somente a tempo de sentir seu punho socando a parede ao lado de sua cama. Sentia que estava irritado, mas ao mesmo tempo entorpecido e fora do controle do seu corpo. Como em um sonho onde você é o observador do próprio protagonismo. Desferiu um segundo soco na parede logo em seguida e recolheu a mão para debaixo do cobertor e dormiu outra vez. Quando despertou horas depois pensou que aquele fora o primeiro sonho do qual se lembrava em muito tempo.

Não estranhou também quando o mesmo aconteceu na noite seguinte. Parecia plausível que sua mente preguiçosa e pouco criativa tivesse o mesmo sonho repetidas vezes. O cansaço, no entanto, somente aumentava. Por vezes acordou tão mais cansado do que estava antes de dormir na noite anterior. Não demorou para que a falta de sono virasse desânimo, para que os músculos de seu corpo se tornarem tensos e rígidos e o conformismo com o qual tratava essa situação desse lugar a certa raiva. Sentimento esse que se espalhou para os vários aspectos de sua vida.

Principalmente seu sono.

Quando mais e mais noites começaram a ficar cada vez menores e cansativas, seu corpo passou a reclamar. A gastrite que há muito não o incomodava mais, voltou a atormentá-lo. Sentia o estômago queimando desde o momento em que abria os olhos pela manhã, até o último instante que se lembrava antes de adormecer. Substituiu o café e o cigarro por iogurte e água, para tentar amenizar a situação. Manchas escuras passaram a surgir pela superfície do corpo, nos ombros, braços, pescoço e ao redor dos olhos—estes tornaram-se amarelados, doentes, como se estivessem cheios de pus. A cama e o travesseiro pareciam rejeitá-lo. A dor que começou no pescoço logo se espalhou por toda sua coluna e logo posição alguma lhe era confortável, fosse para sentar, dormir ou mesmo permanecer de pé.

Lembrou-se de ter acordado em algum momento em alguma noite e sentir o próprio corpo sendo empurrado para baixo, como se afundasse no colchão. Lá do fundo ele pode enxergar através da névoa entorpecente do sono sua própria mão socando repetidas vezes a parede enquanto aquela raiva o consumia e o afogava dentro de si mesmo, quase como se quisesse tirá-lo de lá. Definitivamente. Quando realmente acordou estava sem ar e seus punhos latejavam fortemente. O resto daquele dia serviu para que percebesse que aquela era uma batalha que ele já havia perdido.

Acordado e por um acesso de fúria, socou a parede do seu quarto diversas vezes para ver se ainda sentia. E mesmo após ter suas dúvidas respondidas depois do primeiro soco ele apenas continuou. Quando a dor na primeira mão tornou-se insuportável, usou a segunda, quando essa já não podia desferir mais pancadas ele correu na direção do guarda roupas e deu três fortes cabeçadas, e quando uma das portas caiu no chão deixando apenas as dobradiças retorcidas penduradas nas laterais do móvel ele soltou um longo e rouco grito, porque ali ele era nada mais do que um animal acuado que, no desespero, sabia apenas como ser selvagem.

Antes do fim daquele dia, ele trocou o iogurte pelo café e a água pelo cigarro. Suas mãos tremiam e latejavam quando tentava acender o isqueiro. Seu estômago já não suportava sequer a primeira tragada e suas costas doíam como se carregasse o peso de dois. Dormir começou a ser doloroso e por esse motivo passou a noite em claro. Após outro acesso de raiva no dia seguinte, também não se deixou dormir naquela noite.

Na madrugada do terceiro dia o cansaço o venceu.

Felizmente a noite foi curta e tudo aconteceu bem rápido. Quando seus olhos se abriram e suas mãos arderam das pancadas desferidas contra a parede ele tentou gritar. “Mãe”, foi a palavra que entalou na garganta. Mesmo enquanto era empurrado para o fundo de sua consciência ele sentiu quando o primeiro dedo de sua mão quebrou após um soco. Sentiu também quando, um a um, os outros quebraram e foram esmagados, uma porrada atrás da outra. A dor era tão intensa que ele quis correr, tanto que uma onda de espasmos atingiram suas pernas, como um cachorro adormecido tendo pesadelos. A raiva que o consumira fora tão intensa que demorou a notar quando acordou de verdade. Debateu-se na cama e quando finalmente pode gritar, ele o fez até sentir o gosto de sangue na garganta, e quando pode correr, ele o fez sem se importar para onde estava indo.

Correu direto através do vidro da varanda de seu apartamento no 19º andar.

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