Sonora


É, eu sei que você ouve essa música. O que não sei e sequer ouso a perguntar é quanto tempo você dedicou para apenas apreciar e deixar a melodia escorrer para dentro de seus ouvidos; se em algum momento pensou em atribuir um nome à canção sobre a qual seus pensamentos adormecem todas as noites. Não se preocupe, eu—mais do que qualquer outro—entendo. A noite recai sobre sua parte do mundo e sua cabeça recosta sobre um amontoado de pedras áridas e agudas, é só quando deixa de perceber que o sono lhe acolhe nos braços e te conforta com o esquecer do imediato. Mas de olhos abertos estamos protegidos da bruma do esquecimento. Então ouça…

Ouça como o tempo da melodia é marcado enquanto o coração bate. Sinta as vibrações se espalhando pelo seu corpo em seu sangue. Não tenha medo ainda. Pressione as mãos sobre seus ouvidos e escute o ribombar do grave na composição e ao fundo o tempo marcado pelo forte pulsar em seu peito. O tempo, percebe? É ele o maestro na orquestra.

Mas logo vem a transgressão. O relógio em seu peito é frágil e um único estímulo é capaz de desordenar o compasso da canção e alterar o tempo. As vibrações em seu sangue tornam-se mais rápidas e agora você é capaz de esfregar um dedo no outro perto de seu ouvido e escutar o atrito da textura levemente suada de sua pele. A respiração torna-se acelerada e profunda e você a escuta cada vez mais alto, mas ainda assim sutil. A violência e a maior transgressão vem no soluço turvo e úmido que irrompe de sua garganta, na força com a qual seus punhos e olhos se fecham enquanto o tempo, descontrolado e agitado, prepara o ápice da composição.

É quando seu corpo percebe e o prepara. Suas entranhas gelam, sua pele fica eriçada e o tremor em suas mãos pede por cessamento. Em seus ouvidos o som eufórico e abafado do seu pedaço de mundo.

Por um instante seu coração para e com ele toda a orquestra. O tremor nas mãos e na respiração desaparecem, a pele eriçada e acalma e os olhos piscam devagar. Um único e breve pulsar em seu peito marca o tempo. Mais! O momento. Aquele instante no qual você pode sentir até mesmo as pupilas dilatando em seus olhos desacreditados, ouvir até mesmo o riso que ainda se forma em sua garganta, experimentar uma sensação elétrica pela superfície de seu corpo.

Então seu coração marca o tempo outra vez, e outra vez, e outra vez, como chuva caindo. Mas agora seu queixo pende embasbacado, porque há outro tempo sendo marcado. Um tempo terceiro. É quando percebe que aquilo que ouvia no fundo de sua cabeça, que aconchegava seus pensamentos, que apaziguava guerras interiores e que, a noite, o acalentava com carinho para longe das pedras agudas, que devia ter deixado escorrer de maneira mais audível em seus ouvidos, era apenas um trecho que aguardava consonância.

O que houve agora é a sinfonia completa. Pulsares distintos marcando tempos afinos. É o seu peito e outro batendo forte, maestros eufóricos prontos para marcar a melodia até não serem sequer capazes de suar e mesmo então continuar. Porque o tempo é eterno e esse encontro: harmonia.

Eu sei que você ouve. Que mesmo quando há o silêncio, ele é externo. Que seu corpo é uma ópera que não cessa de funcionar. Porque mesmo daqui, veja, eu ouço.

Anúncios

O que tem a dizer sobre esta publicação?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s