Nina


No meio da noite ele acordou, confuso e ainda entorpecido pelo sono. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o de que ainda era de madrugada. “Nem vou olhar o relógio”, pensou, “ainda devem ser 03h da manhã”. Sempre é, certo? Foi quando percebeu que não estava sozinho no quarto. Sentia o colchão pesado às suas costas, como se alguém tivesse sentado na beirada da cama enquanto ele podia apenas olhar a parede à sua frente. “É branca, não é?”. Achava que sim, mas não conseguia ter certeza.

Pode ouvir o murmúrio de uma melodia que sua mãe cantava para ele enquanto ainda pequeno. Ele se lembrava dela sentada na beirada de sua cama, com a mão quente sobre seu ombro e cantando baixinho até que dormisse. Canção aquela que com o tempo esqueceu da letra, mas nunca da melodia. Algumas noites ele até sonhava com ela cantando tantas outras coisas, como se aquela voz fosse inteiramente musical. Entre suas lembranças de infância não havia uma só noite na qual ela não estivesse ao seu lado, zelando pelo seu sono. Mas havia três anos que morava sozinho.

E sua mãe já estava morta.

Deitado, sentia o coração bater na garganta como se tivesse engolido uma rã viva. Sentiu suas entranhas gelarem tão repentinamente quanto elas se contraíram. Mas seu corpo não se moveu. Achou que se isso tivesse acontecido, quem estivesse sentado na cama murmurando a canção de ninar de sua mãe o teria atacado. Porque não era ela. Ela estava morta e os mortos não chegam no meio da noite cantando, certo? São os tornozelos que eles procuram, por baixo das cobertas, por dentro de suas calças. E então percebeu que seu pé estava para fora do seu cobertor e desejou que não estivesse. Em sua cabeça tudo o que ele quis naquele instante foi mover o pé para o calor de sua coberta antes que um punhado de dedos ásperos e gelados o agarrasse.

Pelo barulho que sua respiração trêmula fazia aquela coisa devia saber que ele estava acordado. “Coisa”, pensou, porque não podia definir de outra forma. Ainda assim continuava a murmurar aquela melodia infantil que sua mãe cantava todas as noites. Não parecia ser apenas uma voz que cantava. Soava como se ao menos meia dúzia de vozes roucas sussurrassem ao mesmo tempo. Quantas coisas haviam no quarto? A simples ideia de haver mais do que a que estava sentada às suas costas o fez tremer.

Foi quando uma mão tocou seu ombro.

Ainda com os olhos vidrados na parede, algo estalou em sua cabeça. “É branca mesmo”. Uma lágrima escorreu dos seus olhos, parando sobre o nariz. Sentiu um filete azedo subir pela garganta e achou que fosse vomitar. Ao invés disso deixou sai um soluço alto demais para continuar fingindo o sono e outras lágrimas se acumularam sobre o seu nariz. A mão em seu ombro não era quente e suave como a de sua mãe, mas pesada e tão úmida que ele podia sentir mesmo através do cobertor. Os dedos tão finos que, sem olhar, achou que estivessem a um palmo de distância uns dos outros. Em qualquer outro momento de sua vida ele poderia refletir melhor sobre o quanto esse pensamento parecia loucura, afinal, seu ombro tem pouco menos que um palmo, mas não naquela noite, com aquela coisa sentada às suas costas murmurando com várias vozes a melodia que sua própria mãe lhe cantara. Naquele instante, tudo o que ele queria era acordar. E dessa vez de verdade.

A ideia de aquilo ser apenas um pesadelo, de alguma forma lhe acalmou. A mão em seu ombro parecia não mais do que um resquício comum da memória muscular. Nem mesmo as vozes roucas sussurrando em seu ouvido pareciam tão assustadoras mais. “Eu só preciso acordar”. Sua ideia, então, era levantar-se de uma vez e sentar-se em sua cama. Um único movimento para se despertar daquele sonho ruim. Não era isso que, de fato, acontecia quando as pessoas acordavam de algum pesadelo? Então que fosse assim!

Enquanto ele tomava coragem, o murmúrio ganhou volume e a melodia ganhou palavras. As vozes ganhavam intensidade, mas nunca o bastante para deixarem de ser somente uma provocação. A música era para ele, e naquela altura apenas ele poderia escutar. A princípio ele não conseguiu entender. Ainda respirava pesado e além das lágrimas, sentia que logo iria molhar as calças. Mas aos poucos as palavras foram ficando claras, e com elas a força da mão em seu ombro aumentava.

Criança maldita, da cara fodida
Se você dormir, vou puxar suas tripas
Se você acordar, vou comer sua língua
Mas se fechar os olhos, a noite ou de dia (…)

Sem aguentar mais ele se levantou. Ofegante e tremendo, correu os olhos por todas as partes visíveis do quarto. A Lua estava cheia e jogava certa claridade através da janela. Para ele aquilo era a coisa mais bonita que já presenciara. Seu corpo suava como se tivesse voltado de uma maratona. Secou as lágrimas do rosto e explodiu em uma risada descontrolada com a certeza de que agora estava realmente acordado. Aquelas não eram as palavras de sua mãe. Não passavam de uma piada de mal gosto de sua cabeça cansada, pensou. E com o corpo leve, se deixou cair de volta no travesseiro.

No mesmo instante pode ver pelo canto do olho a coisa deitada ao seu lado, com os olhos vidrados no seu rosto, cabelos molhados, embaraçados e sujos e a pele doente, terminando a cantiga em um sussurro pútrido e mortal.

(…) vou chupar seus olhos e tirar sua vida.

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