Ventura


Ele imediatamente sentiu o cansaço acumulado em seu corpo pela mesmice diária. Sentou na beirada da cama e olhou através da janela, poucas nuvens escurecidas sob um céu crepuscular, sentiu no corpo o sopro fresco do vento matinal e deixou os olhos se acostumarem com a pouca luz. Sua cabeça, no entanto, ainda tentava se desvencilhar das usuais armadilhas entorpecentes dos sonhos, e em um breve descuido dos olhos fora capturado pela mais insidiosa em sua própria cabeça. Quando despertou, não conseguia sentir-se o mesmo, estava tomado por um febril anseio de procura do qual não encontrou maneiras de se libertar…

Foi apenas ao final daquele mesmo dia, quando uma antiga lembrança de sua infância o desarmou por completo. Via tão claro que o devaneio parecia estar ao alcance de um braço: Uma pequena garota de cabelos curtos e lisos amarrados no topo da cabeça ajoelhada a beira mar, rodeada de pequenos baldes enfileirados em um semi circulo e em sua frente um delicado castelo de areia o qual tinha o formato de diversos baldes de areia empilhados. Sua mãozinha colocava uma pequena concha em uma das colunas centrais daquela estrutura desajeitada, para servir de portão. Ele voltava correndo com um balde cheio de areia e água pronto para adicionar uma nova torre ao castelo.

Porém tão repentina fora o surgimento desta memória, também o fora o seu desvanecimento. Em sua cabeça ficou apenas o conhecimento de que aquela concha ocupou a parede do seu quarto durante anos a fio ainda em sua infância. Sua infelicidade estava em suas próprias limitações. O período no qual a concha deixou de ser um ornamento em seu quarto era um vazio simples e traiçoeiro em sua cabeça. Novamente aquele anseio violento que lhe acometeu pela manhã o perturbava e apesar da consciência dos motivos, ainda lhe faltavam os fins.

Quando a noite caiu e suas pálpebras não voltaram a se encontrar, vestiu seu moletom preto, calçou os tênis de corrida e saiu sem pensar uma segunda vez. Correu até sua antiga casa, onde moravam seus pais que dormiam há pelo menos algumas horas, e usou a sua copia da chave para entrar. Subiu as escadas em silêncio e entrou em seu antigo quarto. Não estava como o deixara da última vez que estivera nele. Certamente sua mãe havia o arrumado, mas ninguém mais havia dormido naquela cama. As paredes vazias já não lembravam aquelas que eram repletas de posteres e desenhos de um garoto aspirante a artista, nem a organização refletia a personalidade de tal. Tão pouco havia uma concha naquele quarto. Revirou algumas gavetas e abriu caixas com seus antigos pertences em uma contínua busca pelo artefato daquela memória tão viva quanto passada, mas nada encontrara. Na corrida de volta para casa não conseguiu se privar de procurar nos canteiros das casas ou nas beiras das calçadas por aquela concha, tamanha era seu anseio.

Durante os meses que se seguiram, aquela tornara-se sua rotina. Quando não revirava as mesmas caixas em outra ordem à que adotara na noite anterior, deitava-se em sua antiga cama apenas para contemplar a parede que já usara uma concha como adorno, quase como se procura-se algum vestígio do buraco de prego que a segurava ali. Quando os meses somaram ano, passou a frequentar aquela mesma praia tentando recordar em qual ponto da orla construíra o castelo com aquela garota. Uma vez pensou em escrever o nome dela na areia, longe do mar para que as ondas não o levassem, mas percebeu que dele se recordava bem. Muito bem. Quando essas visitas não bastaram, ele escreveu histórias e poesias sobre aquela lembrança, sobre aquela garota, aquela concha e aquele castelo, e mesmo nos versos e na prosa de meses e anos não encontrava o remédio para seu anseio.

Ainda assim sentira o peso do tempo. Não conseguia amaldiçoá-lo pois sabia que tanto dele já se intrometera entre sua bela lembrança e seu angustiante presente que não fazia mais sentido. Deixou de revirar as caixas e de frequentar seu antigo quarto, até mesmo a praia não ia com tanta frequência, embora continuasse a escrever durante os meses seguintes.

Quando acordou certa manhã, coçou a barba e levantou-se aos tropeços. Cedo o calor já era intenso então tomou banho gelado para despertar de uma vez. Tomou o café, pegou alguns livros e cadernos e atravessou a cidade até uma biblioteca. Àquela altura ressoava em sua cabeça apenas o dia em que tudo aquilo começara, o vento matinal que atravessou a janela em direção ao seu peito e as nuvens acinzentadas no céu. Aquela, por outro lado, era uma manhã ensolarada.

Sentou-se em uma das cadeiras na extensa mesa de estudos da biblioteca e continuava a escrever sobre como o mundo enlouquecia ao redor dela, quando seus cabelos dançavam sob o sopro do vento. Escreveu até adormecer sobre seus pertences. Sonhara com nada e acordou sobressaltado quando alguém colocou uma pesada mochila sobre a mesa, sentando-se a algumas cadeiras de distância. Fingindo estar absolutamente envolvido com seus trabalhos, continuou olhando para seus textos enquanto limpava os olhos com o peito da mão. Depois de um tempo, juntou suas coisas e, ainda embaraçado, levantou.

Ainda ajeitava a mochila nas costas quando parou de súbito e não deu nem mais um passo. Entendera, então de corpo tremulo, que o vento não sopra de maneira linear, mas circular; e que, assim como o relógio, o tempo é uma roda. Olhou para trás e encontrou os cabelos lisos de uma mulher revirando com certa graça a mesma mochila que o despertara há pouco, da qual pendia um delicado chaveiro em forma de concha.

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