Vida

Caminhei na penumbra da noite, carregando nas costas um saco preto abarrotado de ansiedade e preocupações. Vi-me perdido em uma estrada vazia, acompanhado apenas de um cigarro que quase me queimava os dedos. Sem entender para onde iria ou se tinha para onde voltar, segui o caminho daquela via abandonada.

Depois de muito caminhar, quando a sola dos meus sapatos já havia se desgastado e a dos meus pés já aparentavam feridas abertas, avistei na beira da estrada um homenzinho sombrio, oculto nas sombras dançantes que uma fogueira lançava sobre ele. As rugas no rosto, tão profundas quanto o silêncio daquela madrugada, os cabelos grisalhos lhe escondiam as feições e o manto sujo que vestia dizia que ali, à beira de uma estrada vazia, estava em casa. Continue lendo “Vida”

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Sereno

Reconheço sem ter nunca dito
De minha situação o verdito
É, sem embaraço, estar perdido
Na rasa perpetuidade do amor

Com maturidade hoje entendo
Não é sobre a profundidade deste mar imenso
Onde jamais alguém se afogou em desalento
Por seu amor não saber nadar

Pois são estas águas rasas
Que pouco envolvem os pés em suas extensas asas
Mas que aos horizontes estende sua calma
Sem a preocupação de findar

É esse o motivo da dor de amar
Não a impossibilidade de submerso respirar
Na mansidão das águas agridoces deste mar
Que engoda os atrevidos em seu ardor

É pela incessante vista de tudo
Por vermos quem aperta o passo, mudo
E com a sombra carrega cada miúdo
Dos estilhaços de um coração a desejar

E também pela escolha que faço
De neste lugar cessar meu passo
De não escrever cada palavra que calo
Sempre e em todo lugar

De sentir nos pés o marulho
De poder aceitar o orgulho
De ouvir da água o barulho
De você a se afastar

Confesso

À medida que aproximava a caneta ao papel eu a enxergava. Algumas vezes sob a chuva que caía em torrentes; outras, sentada à mesa dos risos, distraída com o rastro úmido que o copo de cerveja gelada deixava sobre a madeira.

Na minha cabeça, eu a via:

O olhar furioso encarava as nuvens enegrecidas de igual para igual. Os olhos sequer piscavam enquanto as lentes dos óculos aparavam a chuva. O dedo apontava enquanto seu corpo gritava em desaprovação aos desaforos daquele céu cinzento. Se pudesse, levantaria os braços e pelos ombros agarraria a tempestade. “Não!“, esbravejaria com todo o fôlego em seus pulmões. “Não!“.

À mesa, os dedos dançavam sobre a borda do copo vazio antes de subirem e pedirem mais uma. O rosto apoiado sobre a mesma mão que lhe ajeitava os cabelos, quando os risos se agravavam. O olhar, inconstante como o mar em ressaca, intensificado pelo vento deslizando por dentro dos óculos. Se gritasse seria em coro, formando rimas das palavras mais baixas. Poesia embriagada.

Então admito: nem sempre a tinta vira verso no caderno mais próximo. Por vezes, eu apenas exercito o trajeto com a caneta. Jamais a entregando ao papel.

Insistência

Todo dia pela manhã o garoto tocava a campainha. Quando uma mulher de idade avançada atendia, deixava-o entrar e, por algumas horas, o menino de seis anos lhe ajudava com os afazeres por pura e inocente curiosidade. Aos quatro, sua mãe se sentava com ele na calçada para aproveitar o sol matinal. Foi quando ele conheceu Luzia, dois anos mais velha, que morava na casa ao lado com a avó.
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Ira

Noite após noite o sono parecia cada vez mais carregado. A cada novo amanhecer, sentia o corpo cansado o suficiente para tornar tarefas triviais muito desgastantes. Achou que a idade começava a o engolir como uma criança engole um fio de macarrão: rápida e emporcalhadamente. Não se lembrava de sonhar ou ter pesadelos conturbados que justificassem a fadiga crescente. Ao que tudo indicava, seu inconsciente era pouco criativo e apreciava certa inatividade durante o sono. Para ele, o período entre dormir e acordar era um simples piscar de olhos, onde nada acontecia. Exceto, é claro, que ele nunca esteve tão enganado.

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Sonora

É, eu sei que você ouve essa música. O que não sei e sequer ouso a perguntar é quanto tempo você dedicou para apenas apreciar e deixar a melodia escorrer para dentro de seus ouvidos; se em algum momento pensou em atribuir um nome à canção sobre a qual seus pensamentos adormecem todas as noites. Não se preocupe, eu—mais do que qualquer outro—entendo. A noite recai sobre sua parte do mundo e sua cabeça recosta sobre um amontoado de pedras áridas e agudas, é só quando deixa de perceber que o sono lhe acolhe nos braços e te conforta com o esquecer do imediato. Mas de olhos abertos estamos protegidos da bruma do esquecimento. Então ouça…

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