O último texto do Mundo

E à distância, o vento sibila e ecoa por toda a extensão do silêncio no céu. Onde antes trovões ribombavam incessantes, já não o fazem mais. As nuvens enegrecidas e carregadas, antes prenúncio de uma trovoada, agora apenas existem em sua taciturnidade.

Suas águas, um oceano de chuva calada, caíam quando as nuvens me soltaram. Do alto despenco, mas vejo os relâmpagos acobertados pelas nuvens, escondidos em recusa, como um segredo perfeitamente guardado. Vejo o conflito contra sua própria natureza e as faíscas de suas vontades.

Todo o tempo.

Enquanto caio, a água da chuva escorre pelo meu rosto e retorna para elas, que me negam os desejos, que me nega tudo. Então eu grito afrontosamente. Minha voz estronda nos ares como uma explosão dentro de uma caverna. Um urro sem qualquer charme ou beleza; não como o dela. Mas o céu permanecia no silêncio de sua própria afronta.

Longe estou, quando vejo o brilho sereno de uma fagulha no céu. Estendo o braço em uma vã tentativa de alcançar. Sinto meus dedos estalarem enquanto esticam com a força do meu desejo, como se meu anseio fosse ainda me segurar; e me segura.

Apenas tempo suficiente para eu perceber o quanto estava errado, quando achei que o trovão me olhara como se o mundo fosse minha íris. O trovão é o mundo e eu o tinha nos olhos.

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Ela

Sua voz é como um trovão que decidira cantar onde ninguém, exceto eu, pude ouvir.

Então ela cantou; e sua voz ecoou em tudo o que sou e me fizera sorrir como se nunca os meus lábios houvessem sabido exprimir tamanho prazer.

E como a terra que o raio atingiu, meu corpo vibrara e terraformou sob o efeito de seu canto que em mim jamais cessa.

E quando as lufadas quentes de seus lábios me sopraram e meu corpo se eriçou, foi a chuva que caíra e me expôs, como se a tempestade me levasse para a ressaca do mar e me banhasse. Como se o mar quisesse me envolver por inteiro, levar-me e me guardar em suas águas infinitas.

E ele assim o fez.

E quando as águas me devolveram à costa da praia, sua voz me elevou às alturas, onde o tom rouco de seu canto estalava em infinitos clarões; relâmpagos que cegavam o mundo, mas não a mim.

E seus braços me envolveram como nuvens carregadas, tamanho a intensidade do seu toque. Senti-me o próprio trovão de sua voz, se arremessado abaixo, com a eletricidade que me avassalara em seu colo.

Seus olhos, que olhavam os meus como se o mundo inteiro fosse minha íris, eram tão mais belos e infindáveis quanto o horizonte de todo aquele mar. Perdera-me ali incontáveis vezes, muito antes de me dar conta de quão pouco o tempo avançara desde quando ela me olhou. Como se essa força também quisesse que aqueles olhos jamais me perdessem enquanto neles eu me perdia.

Mas foi quando o céu aos poucos se abrira, feixes de luzes douradas mergulharam do alto como gotas de tintas em águas claras; quando o sol se permitira ser olhado por um instante que durara para sempre; quando acima dele o brilho de uma única estrela se fizera visível como se o céu sorrisse de volta, eu percebi… Quão pouco soubera antes daquilo que jamais havia enxergado verdadeira beleza em canto algum senão em toda ela.

Leve-me

Aos meus olhos eu a via pincelada em uma tela pendurada na minha retina: A floresta em um verde enegrecido ao fundo, as folhas e galhos coroando o primeiro plano como uma aura; os feixes de luz dourada que penetravam as copas e a leve neblina da flora convergiam junto às sombras dos troncos e raízes para ela; ali sentada em um rochedo, com seus cabelos em chamas tremulando ao sopro do vento. Enroscada em suas madeixas, uma única flor a afrontava. Sobre suas pernas cruzadas repousava um livro amparado por apenas uma de suas mãos—a outra procurava o botão emaranhado em seu cabelo. Os óculos escorregavam levemente do seu rosto inclinado enquanto os olhos percorriam as linhas que compunham a história que lia.

Desejei que em seu colo repousasse minhas palavras e que seu olhar percorresse toda a minha profundidade. Talvez naquele instante eu tenha perdido a noção do tempo, buscando palavras nas quais eu me perderia a vendo se entregar nas vias dos meus versos, enquanto orquestrava todos os meus sentimentos.

Somente ao acordar de tais devaneios percebi o quanto eu era afortunado. Eu era o livro no qual aqueles olhos repousavam. Eu era os versos brancos que rimavam apenas naquele olhar. O poema ao qual lia vez após vez sem sequer piscar. Sua voz, delicada, mas profunda, sussurrava apenas para si todos os segredos que enxergava nessa poesia infinita que somos. À medida que nela avançava, à medida que se entregava com suavidade crescente ao que a lírica lhe causava… Ela sorria e com aquele sorriso eu me entregava.

Naqueles instantes eu sabia. Se ela fosse uma pintura gravada nas paredes do meu peito, que fosse uma pintura viva. Que voasse e conquistasse os céus, que desbravasse os horizontes além daquela floresta e descobrisse as águas mais profundas dos mares, que visse minha poesia em todos os cantos, como confesso a ver me olhando de todos os lugares, mas que jamais deixasse para trás o livro pincelado no quadro. Pois em todas as páginas que o abrisse, leria em um sussurro as minhas palavras:
Leve-me.

Vida

Caminhei na penumbra da noite, carregando nas costas um saco preto abarrotado de ansiedade e preocupações. Vi-me perdido em uma estrada vazia, acompanhado apenas de um cigarro que quase me queimava os dedos. Sem entender para onde iria ou se tinha para onde voltar, segui o caminho daquela via abandonada.

Depois de muito caminhar, quando a sola dos meus sapatos já havia se desgastado e a dos meus pés já aparentavam feridas abertas, avistei na beira da estrada um homenzinho sombrio, oculto nas sombras dançantes que uma fogueira lançava sobre ele. As rugas no rosto, tão profundas quanto o silêncio daquela madrugada, os cabelos grisalhos lhe escondiam as feições e o manto sujo que vestia dizia que ali, à beira de uma estrada vazia, estava em casa. Continue lendo “Vida”

Sereno

Reconheço sem ter nunca dito
De minha situação o verdito
É, sem embaraço, estar perdido
Na rasa perpetuidade do amor

Com maturidade hoje entendo
Não é sobre a profundidade deste mar imenso
Onde jamais alguém se afogou em desalento
Por seu amor não saber nadar

Pois são estas águas rasas
Que pouco envolvem os pés em suas extensas asas
Mas que aos horizontes estende sua calma
Sem a preocupação de findar

É esse o motivo da dor de amar
Não a impossibilidade de submerso respirar
Na mansidão das águas agridoces deste mar
Que engoda os atrevidos em seu ardor

É pela incessante vista de tudo
Por vermos quem aperta o passo, mudo
E com a sombra carrega cada miúdo
Dos estilhaços de um coração a desejar

E também pela escolha que faço
De neste lugar cessar meu passo
De não escrever cada palavra que calo
Sempre e em todo lugar

De sentir nos pés o marulho
De poder aceitar o orgulho
De ouvir da água o barulho
De você a se afastar

Confesso

À medida que aproximava a caneta ao papel eu a enxergava. Algumas vezes sob a chuva que caía em torrentes; outras, sentada à mesa dos risos, distraída com o rastro úmido que o copo de cerveja gelada deixava sobre a madeira.

Na minha cabeça, eu a via:

O olhar furioso encarava as nuvens enegrecidas de igual para igual. Os olhos sequer piscavam enquanto as lentes do óculos aparavam a chuva. O dedo apontava enquanto seu corpo gritava em desaprovação aos desaforos daquele céu cinzento. Se pudesse, levantaria os braços e pelos ombros agarraria a tempestade. “Não!“, esbravejaria com todo o fôlego em seus pulmões. “Não!“.

À mesa, os dedos dançavam sobre a borda do copo vazio antes de subirem e pedirem mais uma. O rosto apoiado sobre a mesma mão que lhe ajeitava os cabelos, quando os risos se agravavam. O olhar, inconstante como o mar em ressaca, intensificado pelo vento deslizando por dentro dos óculos. Se gritasse seria em coro, formando rimas das palavras mais baixas. Poesia embriagada.

Então admito: nem sempre a tinta vira verso no caderno mais próximo. Por vezes, eu apenas exercito o trajeto com a caneta. Jamais a entregando ao papel.