Ira

Noite após noite o sono parecia cada vez mais carregado. A cada novo amanhecer, sentia o corpo cansado o suficiente para tornar tarefas triviais muito desgastantes. Achou que a idade começava a o engolir como uma criança engole um fio de macarrão: rápida e emporcalhadamente. Não lembrava-se de sonhar ou ter pesadelos conturbados que justificassem a fadiga crescente. Ao que tudo indicava, seu inconsciente era pouco criativo e apreciava certa inatividade durante o sono. Para ele, o período entre dormir e acordar era um simples piscar de olhos, onde nada acontecia. Exceto, é claro, que ele nunca esteve tão enganado.

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Sonora

É, eu sei que você ouve essa música. O que não sei e sequer ouso a perguntar é quanto tempo você dedicou para apenas apreciar e deixar a melodia escorrer para dentro de seus ouvidos; se em algum momento pensou em atribuir um nome à canção sobre a qual seus pensamentos adormecem todas as noites. Não se preocupe, eu—mais do que qualquer outro—entendo. A noite recai sobre sua parte do mundo e sua cabeça recosta sobre um amontoado de pedras áridas e agudas, é só quando deixa de perceber que o sono lhe acolhe nos braços e te conforta com o esquecer do imediato. Mas de olhos abertos estamos protegidos da bruma do esquecimento. Então ouça…

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Bescovine

Primeiro eu a peguei pelas pernas, por trás dos joelhos, e a joguei contra a parede. Senti sua respiração forte e tremula contra a minha, o aroma de seu hálito se misturando com seu perfume. Suas mãos agitadas roçavam pela minha barba e agarravam meus cabelos como podiam enquanto sentia sua língua escorregando dentro de minha boca. Sua pele morena já começava a brilhar pelo suor, aquelas longas pernas me envolveram e me seguravam ainda mais perto daqueles lábios quentes, de um beijo aliciador e malicioso. E ela sabia. Mordeu minha boca e puxou para uma distância onde conseguiu olhar em meus olhos, tão fundo quanto eu queria ir nela. Mordia com força o bastante para fazer escorrer um filete de sangue.

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Nina

No meio da noite ele acordou, confuso e ainda entorpecido pelo sono. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o de que ainda era de madrugada. “Nem vou olhar o relógio”, pensou, “ainda devem ser 03h da manhã”. Sempre é, certo? Foi quando percebeu que não estava sozinho no quarto. Sentia o colchão pesado às suas costas, como se alguém tivesse sentado na beirada da cama enquanto ele podia apenas olhar a parede à sua frente. “É branca, não é?”. Achava que sim, mas não conseguia ter certeza.

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Aquele lugar na minha mente

Estava claro lá fora e escuro aqui dentro.

Minha cabeça.

Como janelas escangalhadas, arrombadas de dentro para fora por momentos, estavam meus olhos fixados, viciados nas rachaduras do meu céu privado. Aqui dentro de meu quarto aonde reino jogado em meu leito desarrumado, assistindo aos pensamentos de todo um dia fugirem atordoados por entre e diante dos meus olhos.

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Ventura

Ele imediatamente sentiu o cansaço acumulado em seu corpo pela mesmice diária. Sentou na beirada da cama e olhou através da janela, poucas nuvens escurecidas sob um céu crepuscular, sentiu no corpo o sopro fresco do vento matinal e deixou os olhos se acostumarem com a pouca luz. Sua cabeça, no entanto, ainda tentava se desvencilhar das usuais armadilhas entorpecentes dos sonhos, e em um breve descuido dos olhos fora capturado pela mais insidiosa em sua própria cabeça. Quando despertou, não conseguia sentir-se o mesmo, estava tomado por um febril anseio de procura do qual não encontrou maneiras de se libertar…

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