Leve-me

Aos meus olhos eu a via pincelada em uma tela pendurada na minha retina: A floresta em um verde enegrecido ao fundo, as folhas e galhos coroando o primeiro plano como uma aura; os feixes de luz dourada que penetravam as copas e a leve neblina da flora convergiam junto às sombras dos troncos e raízes para ela; ali sentada em um rochedo, com seus cabelos em chamas tremulando ao sopro do vento. Enroscada em suas madeixas, uma única flor a afrontava. Sobre suas pernas cruzadas repousava um livro amparado por apenas uma de suas mãos—a outra procurava o botão emaranhado em seu cabelo. Os óculos escorregavam levemente do seu rosto inclinado enquanto os olhos percorriam as linhas que compunham a história que lia.

Desejei que em seu colo repousasse minhas palavras e que seu olhar percorresse toda a minha profundidade. Talvez naquele instante eu tenha perdido a noção do tempo, buscando palavras nas quais eu me perderia a vendo se entregar nas vias dos meus versos, enquanto orquestrava todos os meus sentimentos.

Somente ao acordar de tais devaneios percebi o quanto eu era afortunado. Eu era o livro no qual aqueles olhos repousavam. Eu era os versos brancos que rimavam apenas naquele olhar. O poema ao qual lia vez após vez sem sequer piscar. Sua voz, delicada, mas profunda, sussurrava apenas para si todos os segredos que enxergava nessa poesia infinita que somos. À medida que nela avançava, à medida que se entregava com suavidade crescente ao que a lírica lhe causava… Ela sorria e com aquele sorriso eu me entregava.

Naqueles instantes eu sabia. Se ela fosse uma pintura gravada nas paredes do meu peito, que fosse uma pintura viva. Que voasse e conquistasse os céus, que desbravasse os horizontes além daquela floresta e descobrisse as águas mais profundas dos mares, que visse minha poesia em todos os cantos, como confesso a ver me olhando de todos os lugares, mas que jamais deixasse para trás o livro pincelado no quadro. Pois em todas as páginas que o abrisse, leria em um sussurro as minhas palavras:
Leve-me.

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Vida

Caminhei na penumbra da noite, carregando nas costas um saco preto abarrotado de ansiedade e preocupações. Vi-me perdido em uma estrada vazia, acompanhado apenas de um cigarro que quase me queimava os dedos. Sem entender para onde iria ou se tinha para onde voltar, segui o caminho daquela via abandonada.

Depois de muito caminhar, quando a sola dos meus sapatos já havia se desgastado e a dos meus pés já aparentavam feridas abertas, avistei na beira da estrada um homenzinho sombrio, oculto nas sombras dançantes que uma fogueira lançava sobre ele. As rugas no rosto, tão profundas quanto o silêncio daquela madrugada, os cabelos grisalhos lhe escondiam as feições e o manto sujo que vestia dizia que ali, à beira de uma estrada vazia, estava em casa. Continue lendo “Vida”

Sereno

Reconheço sem ter nunca dito
De minha situação o verdito
É, sem embaraço, estar perdido
Na rasa perpetuidade do amor

Com maturidade hoje entendo
Não é sobre a profundidade deste mar imenso
Onde jamais alguém se afogou em desalento
Por seu amor não saber nadar

Pois são estas águas rasas
Que pouco envolvem os pés em suas extensas asas
Mas que aos horizontes estende sua calma
Sem a preocupação de findar

É esse o motivo da dor de amar
Não a impossibilidade de submerso respirar
Na mansidão das águas agridoces deste mar
Que engoda os atrevidos em seu ardor

É pela incessante vista de tudo
Por vermos quem aperta o passo, mudo
E com a sombra carrega cada miúdo
Dos estilhaços de um coração a desejar

E também pela escolha que faço
De neste lugar cessar meu passo
De não escrever cada palavra que calo
Sempre e em todo lugar

De sentir nos pés o marulho
De poder aceitar o orgulho
De ouvir da água o barulho
De você a se afastar

Confesso

À medida que aproximava a caneta ao papel eu a enxergava. Algumas vezes sob a chuva que caía em torrentes; outras, sentada à mesa dos risos, distraída com o rastro úmido que o copo de cerveja gelada deixava sobre a madeira.

Na minha cabeça, eu a via:

O olhar furioso encarava as nuvens enegrecidas de igual para igual. Os olhos sequer piscavam enquanto as lentes dos óculos aparavam a chuva. O dedo apontava enquanto seu corpo gritava em desaprovação aos desaforos daquele céu cinzento. Se pudesse, levantaria os braços e pelos ombros agarraria a tempestade. “Não!“, esbravejaria com todo o fôlego em seus pulmões. “Não!“.

À mesa, os dedos dançavam sobre a borda do copo vazio antes de subirem e pedirem mais uma. O rosto apoiado sobre a mesma mão que lhe ajeitava os cabelos, quando os risos se agravavam. O olhar, inconstante como o mar em ressaca, intensificado pelo vento deslizando por dentro dos óculos. Se gritasse seria em coro, formando rimas das palavras mais baixas. Poesia embriagada.

Então admito: nem sempre a tinta vira verso no caderno mais próximo. Por vezes, eu apenas exercito o trajeto com a caneta. Jamais a entregando ao papel.

Insistência

Todo dia pela manhã o garoto tocava a campainha. Quando uma mulher de idade avançada atendia, deixava-o entrar e, por algumas horas, o menino de seis anos lhe ajudava com os afazeres por pura e inocente curiosidade. Aos quatro, sua mãe se sentava com ele na calçada para aproveitar o sol matinal. Foi quando ele conheceu Luzia, dois anos mais velha, que morava na casa ao lado com a avó.
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Ira

Noite após noite o sono parecia cada vez mais carregado. A cada novo amanhecer, sentia o corpo cansado o suficiente para tornar tarefas triviais muito desgastantes. Achou que a idade começava a o engolir como uma criança engole um fio de macarrão: rápida e emporcalhadamente. Não se lembrava de sonhar ou ter pesadelos conturbados que justificassem a fadiga crescente. Ao que tudo indicava, seu inconsciente era pouco criativo e apreciava certa inatividade durante o sono. Para ele, o período entre dormir e acordar era um simples piscar de olhos, onde nada acontecia. Exceto, é claro, que ele nunca esteve tão enganado.

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