Realidade alternativa

Demian dormia.
Já era trade e o cansaço havia o consumido. O silêncio era corrompido de um em um segundo pelo andar do ponteiro do relógio. As horas passavam e Demian mexia-se poucas vezes em sua cama no decorrer da noite. Apesar disso, seu semblante transparecia certo incomodo o suor lhe escorria pelas laterais do rosto e ainda assim seus poucos movimentos limitavam-se a singelas mudanças na posição.
De repente uma voz o acordou.
—Demian… — Alguém gritou.
Ele abriu os olhos imediatamente, mas não se levantou da cama.
— Maldito pesadelo.
Não demorou muito tempo, seus olhos foram se fechando novamente. Quando o fizeram por completo, uma gota de suor desceu pelo lado deu rosto e nesse mesmo instante, um novo urro desvairado o fez perceber que o grito que o acordou não foi um pesadelo, mas sim algo muito real.
Demian levantou-se como quem ainda duvidava que não havia tido algum pesadelo ou uma alucinação, mas mesmo assim estava cauteloso. Pisava no chão como se quisesse tirar de si o próprio peso para não fazer barulho algum. O sono ainda deixava seus reflexos enfraquecidos. Ele estava dividido entre um medo ácido que subia por dentro de sua barriga, frio e inquietante e uma angustia que bloqueava o movimento de suas pernas a cada três ou quatro passos. As janelas de sua casa estavam trancadas. Todas. Mas por algum insano motivo, Demian sentia um vento gélido passando pelo seu corpo, não sabia se por medo ou por alguma brecha ou janela aberta que pudesse ter esquecido. Porém não tinha tempo para se preocupar com isso. Algo estava errado e Demian queria saber o que era. Saiu de seu quarto direto para o corredor de acesso a sala de estar e algo lhe assustou. A princípio pensou que realmente estivesse dentro de algum sonho ou delírio. Mas a cada canto da parede que seus olhos passavam, essa idéia ia logo se esvaindo de sua cabeça e percebeu que não se tratava de delírio algum. Encontrou uma frase escrita com tinta vermelha ao acender as luzes.

E SE PASSAR O RESTO DE SUA VIDA EM SEU QUARTO, SEM PODER ABRIR A PORTA PARA TER ACESSO A SALA E AO RESTO DO MUNDO FOSSE MAIS SEGURO? O QUE VOCÊ FARIA AGORA?

Seu sangue gelou como se a temperatura tivesse caído dezenas de graus Célsius abaixo de zero, mas o único impulso que teve foi dar outros passos à frente e abrir a porta que dava acesso à sala de estar.
Ao entrar, acendeu as luzes e uma nova surpresa o aguardava. Demian percebeu que havia uma quantidade imensa de envelopes pretos amarrados por barbantes de cor vermelha presos ao teto. As pernas de Demian tremeram quase ao ponto de ceder ao seu peso e fazê-lo cair. Isso não aconteceu. Porém ele ficou imóvel pelo menos um minuto inteiro olhando a sala. Tudo estava revirado e manchado de tinta vermelha. A mesma que foi usada para escrever a frase na parede do corredor. Perante o desespero, hesitou em pegar um dos envelopes, mas não o suficiente. O primeiro envelope a sua frente não estava em grupo com os outros, estava isolado muito próximo de Demian. Foi esse que ele pegou. Rapidamente abriu aquele envelope rasgando uma de suas bordas e reparou que havia um ponto de exclamação desenhado com tinta vermelha. Percebeu que dentro havia uma pequena folha de papel com algo escrito. Não fora escrito a mão, mas sim imprimido por alguém. Demian leu cada palavra em um tom de você tão baixo que era mais fácil ele ter apenas escutado a leitura que fez em seu pensamento:
— “O que é mais real? A incerteza que nasce dia após dia sobre o seu próximo segundo, ou a certeza que nasce agora de que sua vida não é mais tão incerta assim? Jogue comigo!
Ao terminar de ler, Demian riu, pois a ideia de ser apenas um delírio começava a voltar a sua cabeça
— Bem, agora eu só preciso acordar! — Disse ele calmamente, seguido de um longo suspiro. — Estarei deitado em minha cama, como acontece todo dia…
Guardou novamente aquele bilhete dentro do envelope e o colocou em cima da televisão, ficando assim, de costas para todos os outros envelopes que pendiam do teto. De repente sentiu um arrepio correr por todo seu corpo. Então, dominado por um medo súbito, Demian fechou seus olhos, cerrou os punhos e sua respiração ficou ofegante. Logo após, Demian ficou colérico, pois toda essa situação já estava lhe incomodando.
— Eu vou acordar… AGORA! Pro inferno esse pesadelo — Amaldiçoou gritando e arrancando todos aqueles envelopes. Cada envelope puxado, Demian abria e encontrava a mesma frase.

JOGUE COMIGO, DEMIAN!

Quando percebeu que não iria encontrar nada além dessas mensagens, começou a  jogar os objetos de sua casa ao chão. O fato de ele não ter acordado até aquele instante, alimentava sua ira que o possuía. No momento que Demian iria jogar uma cadeira contra a porta de vidro que dava acesso a pequena varanda de seu apartamento, alguém esmurrou a porta de entrada e falou:
— O jogo começa quando você acordar, Demian — A voz soou calma, mas convicta e audível mesmo no acesso de fúria de Demian.
Ele soltou a cadeira e correu para abrir a porta. Ao chegar perto, a porta novamente foi esmurrada. Então, Demian a abriu e imediatamente viu que a pessoa que fez isso estava andando pelo corredor prestes a entrar no elevador, porém rapidamente Demian correu atrás dele.
— Ei, espere! ESPERE! — Demian gritava ao mesmo tempo em que corria desgovernadamente, ainda atingido por seus sentidos fragilizados devido ao sono.
A porta do elevador estava fechando-se e o indivíduo dono da voz de momentos atrás já estava dentro dele. Demian correu ainda mais rápido para tentar alcançá-lo. Seu coração pulsava forte e sue corpo estava tomado por uma inquietante sensação de erro. A  porta fechou-se por completo antes mesmo que ele a alcançasse. Bastou isso acontecer para que Demian voltasse a ser consumido pela cólera.
— VAI SE FERRAR! VAI SE FERRAR! VAI… SE… FERRAR! — Demian usou socos mais fortes desta vez, fortes ao ponto de cortar sua mão, porém, o corte passou completamente despercebido, pois assim que preferiu seu último insulto, Demian percebeu que, no chão, perto da porta do elevador, havia um novo envelope preto e dentro um pequeno bilhete.

VOCÊ PODE ME CHAMAR DE BRIAN!

Demian não entendeu a princípio, mas rapidamente ligou o nome a tudo de estranho que estava acontecendo desde poucos momentos atrás.

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Ele estava parado em frente a uma porta, ouvindo a fúria de seu jogador. Estava excitado com esse momento e o sorriso que pairava em seu rosto naquele instante era completamente inevitável. Então ele esmurrou a porta e seus lábios articularam-se.
— O jogo começa quando você acordar, Demian.
Aquele sorriso não desapareceu e poucos segundos depois de dizer essas palavras, socou a porta novamente. Estava completamente extasiado. Deu passos para trás e após três ou quatro, virou-se completamente e continuou andando em direção ao elevador. Tirou um envelope preto do bolso. Ele podia ouvir seu jogador correndo atrás  para o pegar, mas mantinha sua cabeça baixa e o mesmo sádico sorriso no rosto. O elevador estava aberto, ele entrou enquanto deixava o envelope cair.
O êxtase foi maior quando as portas começaram a se fechar. Brian ergueu o rosto enquanto ouvia Demian se aproximando. Logo as portas se encontraram. Brian tirou seu celular do bolso e selecionou a função do player de música, os fones de ouvidos estavam conectados ao aparelho, o fio passava por dentro de sua jaqueta de couro preta e pendiam em seu pescoço. Pegou um dos fones, o colocou em seu ouvido direito e apertou play. Heavy metal era seu estilo de preferência. A música tocou e penetrou em seus ouvidos, ao ponto de quase atingir sua alma, aumentando sua excitação.

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Demian abaixou o envelope e o bilhete, e olhou para o final do corredor, mas sem focar nada em especial.
— Então vai se ferrar… Brian! — Demian rasgou o envelope, amassou e jogou no chão. Aos poucos ele virou em direção ao seu apartamento, mas antes que pudesse fazê-lo por completo…
— Não, Demian, ele não vai! — Um outro estranho disse essas palavras ao mesmo tempo em que batia com força a cabeça de Demian contra a parede, até perceber que ele havia desmaiado — Espero que você seja bom o bastante para seu feitiço não virar contra o feiticeiro, parceiro.

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Parecia ser impossível tirar o sorriso sádico que Brian tinha em seu rosto. A música aumentava sua adrenalina rapidamente. Ele cerrou os punhos com força e olhou no relógio, e no mesmo instante o sorriso que parecia não se desfazer, sumiu de seu rosto. A essa hora, seu parceiro já devia ter feito seu trabalho. “Esse garoto não sabe o que espera por ele”, pensava Brian, enquanto o elevador estava em movimento. Em seu celular digitou uma mensagem:

Estou fora. Saia e traga as câmeras.

Selecionou um contato chamado Daniel, enviou, e esperou.

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O quarto de Demian encontrava-se exatamente como Brian o deixara quando saiu, embora Demian não pudesse perceber isso. O estranho o colocou na cama e analisou o ambiente para ter certeza de que estava tudo certo. Após sua análise, o estranho sentiu seu celular vibrando dentro do bolso de sua calça jeans preta. Era uma mensagem.

Estou fora. Saia e traga as câmeras.

Colocou um envelope no peito de Demian e deu três passos para trás, seus olhos percorreram mais uma vez o quarto e por fim, focaram-se no corpo deitado, porém não mais do que um segundo. Após isso, virou-se completamente em direção a porta do quarto. Olhou para cima e na parede, na altura da porta, enxergou a pequena câmera que se dera o trabalho de esconder, depois que Demian havia ido dormir. Agora no corredor, olhou para os escritos na parede e virou-se para trás, onde havia a porta do banheiro. Escondida no chão estava a segunda câmera que Daniel havia escondido. Não eram câmeras comuns, eram tão pequenas adaptações em câmeras de aparelhos celulares. Cabia uma porção delas em um único bolso da calça de Daniel, e foi lá que ele colocou a segunda câmera. Na sala, a terceira estava escondida acima da porta de vidro que dava acesso a varanda. Daquele ponto, a gravação poderia pegar qualquer ação na sala, a menos que ele chegasse muito perto da porta. Daniel recolheu a última câmera e saiu do apartamento fechando a porta. Assim que ouviu o barulho da fechadura, olhou para sua esquerda, deu um pequeno sorriso e recolheu a pequena câmera que, assim como as outras, estava presa com simples pedaços de fita adesiva, a parede.
Enquanto andava em direção ao elevador, Daniel imaginava as possíveis reações de Demian para cada estágio da noite de hoje. Ansioso, queria logo ver as gravações. Pegou o celular e discou um número. Ao atenderem, disse apenas “vamos embora” e logo após, desligou.
Daniel já não estava mais ali e para Demian só restava acordar.

Nota do autor:
Este é o trecho do roteiro que tenho para o projeto de um livro que venho escrevendo desde o ano passado. Mais informações a respeito do projeto em futuros posts.

 

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Realidade alternativa por Kleberson Carvalho de Souza está licenciado sob uma licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas 3.0 Unported License.
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